Ivan Mayer Caron

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O escritório nativo em IA: por que comprar licenças não transforma ninguém

Pete Koomen, da Y Combinator, resume a tese: adotar IA é menos uma escolha de tecnologia e mais uma escolha de desenho organizacional. Para escritórios e departamentos jurídicos, a diferença é entre ganho marginal e virada de patamar.

Comprar licenças de IA não altera o comportamento humano. Uso essa frase em palestra porque ela resume o erro mais comum que vejo em escritórios e departamentos jurídicos: tratar a adoção de IA como compra de software, quando ela é, na verdade, uma decisão sobre como a organização trabalha.

Quem colocou essa tese nos melhores termos foi Pete Koomen, sócio da Y Combinator: a tecnologia é, na verdade, uma escolha de desenho organizacional. Empresas que tratam IA como assistente pendurado na lateral — o estagiário digital que cada um consulta quando lembra — colhem ganhos marginais. Empresas que a tratam como camada central de trabalho mudam de patamar. A diferença não está no modelo contratado; está no desenho.

A memória que vai embora no elevador

Pense na advogada sênior do contencioso: dez anos de casa, os macetes das varas, os modelos que funcionam, o histórico de cada cliente — tudo na cabeça dela e em pastas pessoais. Quando ela sai, o escritório perde dez anos.

No desenho nativo em IA, esse conhecimento vai sendo gravado numa memória comum: os modelos revisados, as teses que passaram, os fluxos de cada tipo de caso. Quem entra não começa do zero — começa do ponto em que a organização já chegou. É o que Koomen chama de cérebro organizacional compartilhado, e é a diferença entre ter profissionais que usam IA e ter uma organização que aprende.

O gargalo do "abre um chamado"

Nas estruturas tradicionais, quem não é de tecnologia depende de quem é: o advogado que quer um painel de prazos pede ao TI e entra na fila. A virada que Koomen descreve é dar às equipes o poder de criar os próprios fluxos em linguagem natural — descrever o que precisam e ver a ferramenta montar, sem fila e sem reunião de requisitos.

No jurídico, isso significa que a rotina que hoje consome a tarde de um associado — organizar intimações, montar o relatório da carteira, padronizar a primeira versão de uma peça recorrente — vira fluxo desenhado pela própria equipe. O que sobra para o humano é o que sempre foi o trabalho de verdade: julgamento, estratégia, relação com o cliente.

Liberdade sem processo é risco com outro nome

Aqui entra a ressalva que separa entusiasmo de método. Dar autonomia para a equipe criar fluxos com IA sem verificação embutida é multiplicar o risco que os novos enunciados do CJF transformaram em sanção. A autonomia precisa vir dentro de uma estrutura que confere as saídas, bloqueia a citação inventada e registra quem verificou o quê — os freios e contrapesos da IA.

A sequência que recomendo a qualquer banca ou departamento é a mesma que aplico nos treinamentos: começar pela atividade-meio (gestão, relatórios, organização interna — menor risco, ganho imediato), instituir a verificação como processo antes de escalar para a atividade-fim, e transformar cada fluxo que funcionou em ferramenta permanente da casa, não do indivíduo. É assim que a experiência de cada um vira patrimônio de todos — e é assim que um escritório deixa de usar IA para se tornar nativo nela.

Escrito por Ivan Mayer Caron — Defensor Público, palestrante e professor de IA aplicada ao Direito e à Gestão. MBA em Legal Operations: Dados, IA e Alta Performance Jurídica (PUC-PR). Expert do J.Ex, principal hub de inovação do sistema de justiça brasileiro; certificado em tecnologia e inovação pela Singularity-U Brazil; coordenador da comissão nacional de IA do CONDEGE.